sexta-feira, 18 de março de 2011

RESENHA DO FILME "NARRADORES DE JAVÉ"

NARRADORES de Javé. Direção: Eliane Caffé. Vânia Catani. Brasil: Bananeira Filmes. Distribuição: Riofilmes e Lumieré, 2003. DVD (100 min) som; color.

     O filme “Narradores de Javé” conta a história de um povoado localizado no interior baiano, condenada em nome do progresso capitalista, a ser inundado para a construção de uma usina hidrelétrica. Seus habitantes, numa tentativa desesperada de poupá-lo da inundação e por sugestão de alguém instruído, decidem fazer uma pesquisa histórica com a qual deveriam reunir dados para comprovar cientificamente o valor histórico do povoado, elevando-o ao título de patrimônio cultural. As informações obtidas e devidamente registradas serviriam como arcabouço para a elaboração de um livro narrando os feitos importantes dos antepassados daquele povo.
     Antonio de Biá, o antigo carteiro do lugar, apesar de pouco querido pela comunidade, foi incumbido de realizar a pesquisa, por ser ali o único com alguma instrução para a prática da leitura e da escrita. Entretanto, durante o processo de pesquisa ocorreram muitas falhas que culminou com o insucesso do plano e a inundação de Javé; sendo que, a principal motivação para esse resultado foi o descrédito por parte do pesquisador no objetivo da pesquisa.
    Enquanto pesquisador, Biá não tinha conhecimento teórico sobre pesquisa cientifica; enquanto sujeito histórico desconhecia o valor da cultura local e em nenhum momento demonstra acreditar no projeto que estava desenvolvendo. Talvez, influenciado pela própria consciência de classe que de antemão lhe dava a certeza do final infeliz. Fatores como esses, convergiram para sua total indisciplina e para a falta de registros dos dados coletados já que ele não tinha um direcionamento, um parâmetro a seguir; não sabia o que priorizar nas entrevistas nem nos registros. Além disso, sua relação de convivência com os narradores (sujeitos e colaboradores da pesquisa) permitiu o envolvimento do trabalho com a vida pessoal e a pesquisa tornou-se tendenciosa. Cada respondente defendia sua versão dos fatos como verdadeira, enquanto Biá, descrente de todas elas, interferia nos relatos visando favorecer seu trabalho de escritor.
     Outro relevante motivo que concorreu para o fracasso da pesquisa foi a falta de registros históricos documentais (memória da tradição escrita) e a total discrepância entre os relatos dos moradores (memória da tradição oral). A falta de consenso entre eles e de documentos para o cruzamento dos dados inviabilizou o trabalho do pesquisador que acabou não validando nenhum dos depoimentos. Esse fato torna evidente o valor do registro para a preservação da cultura, facilitando a sustentação ou desbancando o que é dito nos relatos vivenciais que tendem muitas vezes, vir carregados de interesses pessoais, ideológicos e subjetivos dos sujeitos, como disse Biá: “Uma coisa é o fato ocorrido, outra coisa é o fato escrito”, ou seja, a história sempre traz um pouco de quem conta. Disso decorre a importância da pesquisa como fonte das informações que são oficializadas e que mesmo assim não são neutras ou imparciais.
     O povo de Javé foi forçosamente “expulso” de sua terra de origem porque não tinha nenhuma instrução para defender sua permanência ali e delegou sua única chance de defesa a um homem semi-analfabeto que apesar de saber ler e escrever, não tinha competência leitora desenvolvida, ou seja, a capacidade de compreender, interpretar e argumentar diante dos fatos cotidianos. O triste final da historia de Javé denota o quanto é interessante para a classe dominante que a grande massa seja desprovida de conhecimento, pois, um povo sem identidade coletiva preservada e sem meios para tal, torna-se um alvo fácil para a opressão daqueles que em nome da ganância do ter, ignora o direito do outro.
     O filme trata de um jeito descontraído de temas interessantes para a discussão no meio educacional, com alunos de diferentes modalidades de ensino (do fundamental II até o ensino superior) dependendo do enfoque, que pode ser desde a importância da educação formal até o exercício da cidadania na defesa dos direitos civis e humanos, ou a valorização e o resgate da cultura de um povo.

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